terça-feira, 9 de julho de 2013

O livro da solidão


Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo à lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.
 
                                                                                 Cecília Meireles.
 
 

terça-feira, 12 de março de 2013

Concordância do verbo parecer

O verbo parecer possui uma concordância peculiar quando acompanhado por outro verbo, esta particularidade verbal causa certa confusão, entretanto é muito fácil de ser tratada uma vez que este caso aceita duas respostas, mas é necessário falar que esta diferença ocorre apenas se este verbo é conjugado na terceira pessoa tanto do plural como do singular e o sujeito estiver no plural.

1º O verbo parecer pode ficar no singular enquanto o verbo seguinte fica no plural, observe os exemplos abaixo:

As estrelas parece brilharem.
Os meninos parece estarem aflitos com algo.
As rosas nesta estação parece serem mais belas que no verão.

2º Neste caso o verbo parecer fica no plural, concordando com o sujeito, enquanto o próximo verbo fica no singular, observe os demais exemplos:

As estrelas parecem brilhar.
Os meninos parecem estar aflitos.
As rosas nesta estação parecem ser mais belas que no verão.

Estas são as regras de conjugação do verbo parecer e de seu verbo complementar quando o sujeito estiver no plural e o verbo referir-se a terceira pessoa do singular ou plural. Espero que tenham gostado e que isto tenha ajudado a todos, caso puderem seria muito bom ler seus comentários!




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A Graça

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?


És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?


Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e púrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...

         (Alexandre Herculano)

Gênero dos substantivos

Na língua portuguesa todo substantivo tem dois gêneros: o feminino e o masculino, todavia há línguas onde aparece o gênero neutro. Os substantivos são classificados quanto ao gênero em epicenos, comum de dois gêneros e sobrecomum.

Os substantivos epicenos são usados para designar seres cujos nomes não variam em gênero e nem o artigo muda, são os nomes de certos animais, que não possuam feminino, e plantas.
Para demonstrar o gênero destes substantivos acrescenta-se a palavra fêmea ou macho depois do nome do animal ou planta.

Exemplo: A cobra fêmea; a cobra macho.
                O urubu fêmea; o urubu macho.
                O mamoeiro fêmea; o mamoeiro macho.
                O lírio fêmea; o lírio macho.

Uma vez que há palavras relacionadas a humanos que não tenham variação de gênero e aceitam apenas um artigo para designar os dois sexos, estas palavras são conhecidas como sobrecomum.

Exemplo: A vítima.
                A criança.
               
Há ainda substantivos que não se flexionem em gênero, mas aceitem o artigo feminino e o masculino, estes substantivos são chamados de comuns de dois gêneros.

Exemplo: A cônjuge; o cônjuge.
                

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ângelus

Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nest'hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.
                          (Francisca Júlia)

Oração

Uma oração é toda frase que possua um verbo, assim:
                    " Última flor do Lácio, inculta e bela".
                    "Toda de orvalho trêmula".
                    "Adeus, meus sonhos".
Estes três enunciados não são orações, pois em sua composição não há verbos.

Assim, toda oração é uma frase enquanto nem toda frase é uma oração.

Uma ou mais orações formam um período, sendo que chamamos período composto o período formado por duas ou mais orações e período simples o período com apenas uma oração.
           Exemplo: "Adeus meus sonhos, que planteio e morro".
Neste enunciado há um período composto, pois há duas orações que interagem.

Para saber quantas orações há em um período apenas é preciso contar os verbos, uma vez que para cada verbo há uma oração.
            Exemplo: "Amor é fogo que arde sem se ver".
Neste período há três orações, porque há três verbos: é; arde; ver. 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Flor do Mar

És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio
que põe rede de sonhos ao navio
e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
as dormências nervosas e o sombrio
e torvo aspecto aterrador, bravio
das ondas no atro e proceloso aspecto.


Num fundo ideal de púrpuras e rosas
surges das águas mucilaginosas
como a lua entre a névoa dos espaços...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
auroras, virgens músicas marinhas,
acres aromas de algas e sargaços...
                   (Cruz e Souza)